O terceiro grupo - Aquarius - elas acham que é especial. "nasceu da experiência dos outros; aprendemos com os erros e estamos construindo diferente". Relatam que, muito antes de 2010, quando o grupo começou a se formar, a diretoria da Colônia já vinha pensando na criação de um grupo de alimentação. Principalmente para atuar em festas da comunidade e reuniões, a exemplo do que já ocorre em outras colônias. Começou a se materializar quando um curso de gastronomia, através de uma parceria da Superintendência da Pesca com a fábrica de farinhas Sarandi, foi realizado durante a 7ª edição da semana do peixe, em setembro de 2009. Peixes como manjuba, saramunete, bicuara e budião, apesar de abundantes na região, possuem baixo valor comercial. A iniciativa visava agregar valor a os pescados, bem como possibilitar, com o desenvolvimento das receitas, o aumento sustentável da renda familiar. Pouca coisa foi produzida, entretanto, até setembro de 2010 quando, por ocasião da 1ª Feira de Agricultura Familiar e Reforma Agrária de Pernambuco, no Marco Zero no Recife, decidiram colocar seu aprendizado em prática. Para lá, produziram e comercializaram coxinha, pastel, Risolis, esfirras e tortas. Atraiu a atenção, rendeu lucros bastante significativos diante do custo apresentado e empolgou. Desde lá, não pararam mais de produzir coletivamente e participam de todos os eventos que conseguem descobrir, bem como aceitam encomendas para festas, simpósios e reuniões. Atualmente oito mulheres integram o grupo e, no momento, acreditam não ter estrutura para aumentar.
O próximo passo é uma cozinha industrial. Para isso estão construindo, com a parceria principal do IPA, o projeto de turismo ecológico para a região. Em fase de elaboração para posteriormente ser apresentado para o Ministério, o projeto conta com um galpão que abrigaria uma cozinha industrial, que também serviria para o processamento do peixe dos demais integrantes da Colônia, além de espaço adequado para o administrativo. Além disso, visa construir um pier na beira do porto, valorizando o local e inserindo um quiosque, para comercialização dos produtos para os visitantes.
Enquanto aguardam, vão se virando com o que têm, sempre visando a melhoria do espaço. Recentemente obtiveram, junto ao Pronaf, um empréstimo de R$ 2.000,00 que serviu para a compra de um fogão de seis bocas, assim como liquidificador, batedeira, bacias, panelas, facas e outros instrumentos necessários para a produção. Processam o peixe e preparam os alimentos na casa de Luzia, no entorno da "sede da colônia": uma sala, que serve para as reuniões; sala de aula do Projeto Pescando Letras (Alfabetização de Jovens e Adultos, numa parceria do Ministério da Pesca com o Governo do Estado). A construção, inclusive, foi estruturada pela Prefeitura de Abreu e Lima, como contrapartida do município para o projeto do Tele centro, que deve começar a funcionar em breve. É lá que também fica o fogão e para lá que o alimento, pré-pronto, é levado para ser cozido, frito ou assado, conforme sua especificidade.
Para breve também, enquanto aguardam o projeto maior, contam com a iniciativa da Prefeitura, que vai estruturar, mesmo que provisoriamente, uma cozinha semi-industrial numa pequena construção ao lado desta sala, que será azulejada e contará com um balcão para o processamento dos alimentos.
O nome Aquarius, surgiu mesmo foi da cabeça de Luzia: "eu tinha um sonho de um dia montar um restaurante. Pensava num nome que não fosse peixe, mas que tivesse relação com isso". Nada melhor do que Aquarius, concluiu observando exatamente o que um aquário continha. Com o início do grupo, Luzia foi transportando o sonho, antes individual, para o coletivo. "Não penso mais somente em mim. Penso na comunidade". De imediato as demais integrantes gostaram, decidiram e hoje já possuem todo o material gráfico do grupo - desde cartões de visita até aventais com a logomarca - através também de parceria com o Programa Conexões de Saberes vinculado a Pró-reitoria de Extensão - UFPE e articulação com o curso de design da UFPE.
O Aquarius, segundo elas, é o grupo que trabalha em maior harmonia dos três. Acreditam que tenham aprendido com os "erros" dos outros dois, e creditam sua empolgação à forma de organização do próprio grupo, que funciona com a valorização de todas as funções. "grupo de cozinha não é feito só de cozinhar. Cada uma é de extrema importância, desde a que está preparando a massa, até a que está limpando ou que traz uma receita diferente", ensinam.
Explicam, com isso, um pouco do que chamam de "erros" anteriores. Quando fundaram o Maré Arte, não pensavam assim e acreditavam que todas as mulheres pudessem produzir artesanato. Nem todas tinham esta habilidade, entretanto e como não valorizavam, no grupo, funções como a de coleta de sementes ou de cascas, por exemplo, muitas acabaram se afastando.
Outro dos erros anteriores, para elas, foi terem se afastado da Colônia. "quando soltos, perdem fronteiras", afirmam, com a certeza de que o grupo pode também auxiliar na fixação da identidade de Porto Jatobá: "tudo o que utilizamos é daqui", descrevem, já que desde o peixe até a macaxeira ou a banana, utilizados nas receitas, são pescados, plantados ou coletados no local, por integrantes do grupo ou da comunidade. Ficar na Colônia também significa ter um local para produzir, além de terem a possibilidade de utilização do próprio CNPJ, para comercialização e projetos, ampliando as possibilidades de ingresso em programas como o PNAE e PAA, por exemplo.
Com a determinação de manterem uma relação de interdependência com a Colônia, uma nova decisão, talvez a mais significativa para sua estruturação futura: não pode haver, no grupo, mais do que duas pessoas da mesma família. Isso porque, segundo elas, e fruto de uma ampla reflexão sobre sua realidade, "a colônia não pode trabalhar para uma familia; tem que trabalhar para a comunidade como um todo".
Este item, inclusive, consta como o primeiro do "acordo de convivência" do grupo - um conjunto de regras constituídas para seu funcionamento, no qual também estão inseridas a necessidade de confiança mútua; de divisão de tarefas e de cooperação. Há também itens que falam especificamente sobre como agir em relação aos erros, desavenças, intrigas ou fofocas. E mesmo TPM ou como enfrentar a existência de temperamentos diferentes. Problemas familiares ou outros, que impeçam que uma das integrantes esteja presente quando necessário ou deixe de cumprir com a função que lhe foi destinada na divisão de tarefas, deve ser explicado, "e o grupo terá que ouvir e apoiar", exemplificam.
Segundo elas, compreender os horários e as dificuldades de cada uma é vital para o funcionamento do grupo: "todas somos mães, temos filhos, responsabilidades com nossa casa, nossos filhos e maridos. Não podemos sacrificar nem um ou outro". Acima de tudo, querem preservar a amizade, a união e o respeito e, para isso, contam com o acordo de convivência, que inclui as conversas abertas e a possibilidade de trocas nas escalas.
Mesmo que a renda ainda seja pequena, todas ganham igual, exatamente por acreditarem que todas as funções são importantes. Para aumentar a renda, pensam em ir para a cidade, para restaurantes, levar cartão e apresentar os produtos. Um rendimento mais fixo fugindo da sazonalidade das feiras e encomendas, é o que buscam. Com ele, acreditam que possam colocar em prática seu maior desejo: ter um ganho fixo mensal; uma renda que possibilite sua independência financeira e o auxílio no sustento da família.
crédito de texto - Nani Mariani

