terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Maré Arte: onde tudo começou






Tudo começa, segundo o relato das mulheres e dos próprios parceiros, em 2007, a partir de um grande desastre ecológico provocado na região. Desde dezembro de 2006, quando foi registrada a primeira denúncia de esgoto e resíduos químicos lançados no Rio Timbó por cerca de 23 indústrias instaladas na Região da Bacia, o dano ambiental era visível. Nada se comparou, entretanto, ao causado pela Saint-Gobain Abrasivos, em 2007. Durante meses, a Saint Gobain efetuou despejo de efluentes industriais no rio e nem mesmo a aplicação de multas pela Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (CPRH) impediu que continuassem. Acabaram provocando a mortalidade de peixes e, principalmente, dos mariscos, sururu, ostras e camarões. ”Muitos peixes, que sabem nadar, foram para outros lugares, mas e o sururu e o marisco, que vivem grudados nas pedras?” perguntam, já conhecendo bem a resposta.
Na época, a organização ainda era por Associação. A Colônia (que possui funções que se assemelham à dos sindicatos de classe) só passou a funcionar como tal em 2008, a partir da capacidade de articulação da própria comunidade. As ações desenvolvidas no período foram inúmeras. Aplacar a fome era a tarefa imediata, mas a mais importante era o retorno do pescado para o Rio Timbó. Para isso, foram muitos os caminhos percorridos.
Para diminuir a fome contaram, durante seis meses, com cestas básicas fornecidas pela Prefeitura e insuficiente para o número de famílias atingidas. Neste caso, através de uma ampla organização e conhecimento da comunidade, acabaram criando critérios para a distribuição, selecionando, dentre as famílias, as que mais necessitavam. Para aumentar a feira, então, passaram a coletar as frutas do quintal (vendidas na feira); armaram uma tenda em praça pública e fizeram o porta a porta pedindo doação de alimentos (não queriam dinheiro, apenas comida). Houve também, durante o processo, muitos que acabaram se afastando e procurando ocupações fora da pesca (construção civil, principalmente) para garantir um sustento mínimo de suas famílias.
As ações para o enfrentamento do desastre ambiental também foram muitas e passaram pela mobilização da comunidade, integração ao movimento ambientalista e inúmeras denúncias e visitas aos órgãos responsáveis, além da articulação da imprensa.
As iniciativas foram dando resultado e, em paralelo, a consolidação de algumas parcerias. Aos poucos o rio voltou a ter possibilidade de pesca mas, como era de se esperar, as mulheres continuavam as mais prejudicadas. O peixe, que nadou na época do desastre, foi voltando, mas o restante havia morrido. Justamente o que possibilitava renda para as mulheres.
Assim começa a história do primeiro grupo, fruto da constatação das próprias mulheres e da Associação de que precisavam gerar renda e de que, para isso, precisavam e podiam encontrar outras fontes além do marisco.
No final de 2007 o IPA, que se tornou parceiro neste período, propiciou um curso de artesanato (casca de marisco, sururu, ostra...) para 10 mulheres da comunidade. Esta primeira iniciativa não frutificou, porque as mulheres acabaram apenas produzindo para si, mas acabou ganhando fôlego a partir de uma segunda parceria, com a Universidade Federal de Pernambuco, através do programa Conexões de Saberes. Chegaram pelas mãos de Edilson, "filho da comunidade", e integrante do programa, que trouxe Ana Emilia, professora do curso de design e coordenadora do Conexões de Saberes. Com ela, novas possibilidades: trabalharam a identidade; materiais e começaram a produzir acessórios femininos para comercializar. O nome do grupo: Maré Arte, remetendo ao lugar onde vivem, onde e o que produzem e de onde tiram a matéria-prima para sua produção. R$ 90,00 foi o investimento inicial do grupo, obtidos com apoio dos parceiros e utilizados para comprar alguns materiais necessários. Para a primeira feira da qual participaram, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE, lembram até hoje, conseguiram um empréstimo de R$ 70,00 com “Seu Dega”, presidente da Colônia. Obtiveram R$ 180,00 de retorno; pagaram o que deviam e dividiram o que sobrou igualitariamente, depois de guardarem R$50,00 na caixinha. Eram seis mulheres e cada uma recebeu R$ 12,00. Do grupo inicial a maioria saiu, porque necessitavam de  retorno imediato. Outras foram entrando, entretanto e hoje, a maioria das sete integrantes mora na cidade de Abreu e Lima e se mantêm numa estrutura familiar. São irmãs, tias e sobrinhas trabalhando juntas, na casa de uma ou outra, já que não possuem lugar específico para sua produção. Comercializam em feiras, com o apoio e indicação dos parceiros. A maioria das feiras rende de R$ 200,00 a R$ 300,00, mas já houve em que conseguiram R$ 600,00 e outras em que não vendem nada. Passam, além disso, dois ou três meses, sem feira para comercializar. Nesse período, segundo seu relato, voltam à pesca ou fazem alguma faxina para ajudar no sustento da família. 



crédito de texto - Nani

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